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Esta noite me inspirei para escrever de forma diferente da qual vocês estão acostumados. Estou com a alma sensibilizada, com o rosto congestionado e com o colo tocado por gotas de lagrimas.

Faz uma noite quente e agradável de sábado aqui onde me escondo do mundo. Encontrei hoje, pela primeira vez neste ano, um vaga-lume em meu jardim. Isto ocorreu antes de regar as plantas que cultivo com carinho desde a semente. Ao olhar a cena de minha gata tentar pega-lo com suas ingênuas patinhas coloridas me recordei de um filme que há um ano atrás me tocou a alma. Então, respirando fundo o doce ar noturno umedecido e adocicado pelo aroma de flores caminhei ate meu pc e assisti pela terceira vez um dos filmes e animações japonesas que mais me arrancou lagrimas: “Hotaru no Haka”, também conhecido comoTúmulo dos vaga-lumes”.

Este anime é baseado em um livro escrito por Akiyuki Nosaka, um sobrevivente da Guerra que perdeu sua irmã durante o conflito. Sentindo o amargo sabor da morte de sua ele escreveu o livro como um tributo à memória de sua irmã e seus familiares que tanto sofreram na Guerra. Bem como todo seu país, não é mesmo?

Após ler esta informação uns minutos antes de rever a animação, percebi que o impacto emocional em mim foi maior que das outras vezes.

Tome fôlego, pois hoje você conhecerá um ladinho meu que poucas vezes consigo mostrar nos textos. É o Direto ao Ponto caminhando de forma oblíqua e cortante até sua alma, e quem sabe, até seu coração. Cutucaremos o ponto dolorido da guerra que maltratou grande parte do mundo, em especial a nação que simpatizamos tanto: a Japonesa.

Fiquem sabendo que tanto a Animação de 1998 quanto o Live action (que possui 1 hora a mais de duração com bastante ênfase em partes não tratadas no anime) são tocantes e trágicos. Vale a pena conferir com alguém querido ao lado.

Tenho especial carinho por historias que começam do fim, pois tocamos o fino e delicado fio de condução do enredo com os dedos nus e concentrados, com medo de perder a meada. Hotaru no Haka (1988) é um desenho no formato longa metragem que começa dessa forma, que te choca do inicio ao fim, que testa seus nervos e seus olhos a cada respiração e mudança de cena. O cuidado nas cenas quotidianas é tomado nos mínimos detalhes, o que chega a perfeição. As alegorias usadas ao longo da historia são profundos sulcos que crescem ao longo da narrativa.

Logo no inicio, percebemos uma leve critica de cunho humano. Enquanto todos enxergam um garoto faminto e pedinte sentado no chão de uma estação de trem, poucos, (porque não dizer nenhum?) percebem que ele estava morto. Morto na alma, no coração e em seus sonhos, antes do corpo.

Os protagonistas são irmãos os órfãos Seita (um garoto de aproximadamente 12 anos de idade) e Setsuko (uma menina de poucos anos, talvez 4) no período da Segunda Guerra Mundial. A crucial luta pela sobrevivência das duas crianças, em meio à pobreza e miséria que assola o país é pintada em um quadro realista e, muitas vezes até colorido e ingênuo, cheio de nuances delicadas e apaixonantes. A cena onde médicos carregam o corpo inerte da mãe dos garotos é arrepiante; ali nos deparamos com a morte em sua face negra, onde larvas de moscas mostram seu trágico e faminto objetivo.

As crianças partem para outra cidade, para morarem na casa de uma tia. Mas lá, com o passar do tempo e com o aperto financeiro e alimentício, eles não são mais tratados como da família, não se alimentam direito e acabam abandonando a casa para morar em um abrigo improvisado. A ajuda amorosa se transforma em rancor. Esta é mais uma verdade desnudada pelo artista que compôs a obra, mostrando como a guerra fere o corpo e a mente dos personagens.

Em seus 90 minutos de filme o diretor Isao Takahata mostra com maestria uma fotografia que raramente se vê na temática de guerra, principalmente quando falamos de Guerras em que Japão participou. A carga dramática do anime é fortíssima e posso afirmar que não é um filme piegas, mesmo contendo cenas que fazem lagrimas correr involuntariamente.

A cor predominante em momentos tensos e dolorosos é o vermelho. Cor do sangue que jorra pelas feridas abertas, cor que marca do nascimento de um ser, é a cor que pinta os cenários nos momentos de bombardeiros, cor do fogo que leva a alma ate os céus, deixando na terra as cinzas e a insalubre marca da morte.

A animação me fez, pela primeira vez, torcer incondicionalmente pela figura do ladrão, quando o pequeno e desesperado Seita rouba comida e roupas para evitar que sua irmã morra de fome.

Um turbilhão de sentimentos invade sua mente ao ver certas cenas. De uma chance a você mesmo de sentir essas sensações enquanto aprecia a obra.

A união dos 2 irmãos chega a ser tão sublime que nem a guerra, com sua maquina de destruir sonhos e vidas, conseguiu separar. Mesmo diante do caos e sofrimento do dia-a-dia, os nossos olhos e os dos personagens enxergam beleza nos insetos que os rodeiam, na paria aonde vão, nas parcas plantações que permeiam os caminhos que são obrigados a seguir.

“Cemitério dos vaga-lumes” possui uma poesia sublime composta por pequenos detalhes que nos mostram um mosaico de simplicidade e ideologias japonesas. Desde pequenas pétalas de flores de cerejeira com toques de lembranças felizes, ate os grãos de arroz que matam a fome do corpo e da alma dos personagens no momento de sofrimento. Estes são símbolos fortes, não são? Aparecem em muitas obras de animação, mas nesta são tratados com exímio trabalho de mostrar a trágica historia dos personagens.

No rico enredo, uma latinha de balas assume uma alegoria de infância colorida, numa época em que poucos tinham acesso ao doce. É importante notar que essa alegoria persiste na historia em varias formas, desde um simples receptáculo de esperanças que aos poucos se torna vazio e doce, resultando em água adocicada para os lábios de Setsuko, ate que , por fim, se torna um tumulo, a ânfora das cinzas da pequena garota. Esta é uma construção digna de uma obra de arte, na minha opinião.

O mesmo ocorre com a analogia da vida humana comparada a vida curta dos vaga-lumes que estão sempre presentes na historia. Tudo é passageiro, mesmo os mais profundos ferimentos e sofrimentos passam. Como a luz confortante e bela dos insetos fluorescentes que enfeitam o pequeno lar improvisado pelos irmãos a beira de um lago. Ali, o amor fraterno e a luta pela sobrevivência se encontram em um choque conceitual de arrancar lagrimas de um expectador de pedra.

As duvidas filosóficas que pairam em minha cabeça após ver este filme.são: Por que tudo que é bom acaba rápido? Por que chorei tanto ao ver a Setsuko enterrar os vaga-lumes em homenagem a sua mãe? Por que chorei ao ver a pequena lata de balas ser jogada no lixo assim que encontram o corpo de seita? Por que sonhos podem acabar tão facilmente, mas persistem enquanto ainda temos uma chama de vida?

Este foi um lado quase filosófico de Nisa Benthon. Dêem-se ao luxo de conferir esta obra. E, caso já tenha assistido, reveja. Escolha alguém que olhe em seus olhos no final da animação e te abrace confortavelmente. Não faça como eu, que assisti sozinha e chorei sozinha.

Que o dia de vocês seja iluminado por centenas de vaga-lumes.

Beijos na alma.


Nisa Benthon.